terça-feira, 14 de junho de 2011

Intempérie II

"Quando Afrodite nasceu, os deuses reuniram-se num festim onde, entre vários outros se encontrava o Poros (Engenho), filho da sabedoria. Depois de jantarem, eis que apareceu a Penia (Pobreza) a mendigar os restos, como é usual em ocasiões de festa… E ali ficou, junto à porta. Entretanto Poros, já embriagado de néctar  foi para o jardim de Zeus, e tão pesado se sentia, que adormeceu. Então a Penia, que na sua natural indigência meditava ter um filho de Poros, deitou-se junto dele e assim concebeu Eros (Amor). Eis a razão por que o Amor nos surge como companheiro e servidor de Afrodite: concebido nas festas em honra do seu nascimento, é, por natureza, um apaixonado do Belo, pois que Afrodite é bela. Por outro lado, a condição de filho do Engenho e da pobreza ditou-lhe o seu destino.
Condenado a uma perpétua indigência, está longe do requinte e da beleza que a maior parte das pessoas nele imaginam… Rude, miserável, descalço e sem morada, estirado sempre por terra e sem nada que o cubra, é assim que dorme, ao relento, nos vãos das portas e dos caminhos: a natureza que herdou de sua mãe fez dele um inseparável companheiro da indigência. Do lado do pai, porém, o mesmo espírito ardiloso em procura do que é belo e bom, a mesma coragem, persistência e ousadia que fazem dele um caçador temível, sempre ocupado em tecer qualquer armadilha; sedento de saber e inventivo, passa a vida inteira a filosofar, este hábil feiticeiro, mago e também sofista"
Platão, O Banquete. Trad. Maria Schiappa de Azevedo

O meu amor é insuficiente, prezo o que não tenho e desprezo o que lutei para conseguir, banalizo minhas conquistas e idealizo minhas procuras, a indigência do meu espírito é presente no meu olhar e até mesmo a carência de seus toques não consome minhas faltas.