O mais pesado dos fardos nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino. O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira.
Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificante.
Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser
Permita-se, beije-me se assim for de sua vontade. Me acalme com suas mãos, interrompa minhas palavras mal intencionadas com sua boca que tanto olho, que desejo tocar. Se a incongruência de meus atos fosse medida pela ilação de minha pouca idade, agora estaria com teu gosto nos lábios e teu cheiro em minhas roupas, saberia qual é o peso do teu corpo sobre o meu, exsudaria meus conflitos molhados pelo seu suor. Não desvie seu olhar, deixe-me ser a mulher daquela entrada, nem todos os fardos resistem ao tempo, eu sinto prazer em me reinventar. Sua "virtude" já se tornou, para mim, um infortúnio.